quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Depois de você

Procuro minhas pegadas por entre as pedras e tento achar o meu ritmo no cair das águas.
Olho para o horizonte e vejo o sol partir e questiono-me se eu estaria indo junto com ele.
Eu olho para a terra que toca o céu e penso que ela é enganada pela ilusão do olhar, e se ela tão intensa e tão densa pode ser enganada, quem dirá eu.
Eu tento me sentir no bater do vento mas é apenas oxigênio. Eu tento agir no calor das chamas, mas não há saída.
Por uma vez ou outra eu colhi algumas conchas e tentei ouvir-me, não esperava o canto de uma sereia, eu só queria a mim, um sussurro ou até um grito de alguém claustrofóbico.
Eu me procurava por entre a beleza, por entre terra, ar, água e fogo. Eu me perdi entre a firmeza da tua mão sobre a minha, do teu lábio no meu, na ardência que me fez sentir e nunca me encontrei novamente. Continuo me procurando por entre a beleza do mundo, mesmo sabendo que eu só posso me encontrar em você. Ideia oposta.
Lembro-me como te amei naquele beijo. Te guardei em uma caixinha de diamante, sem abertura, sem possibilidade de volta, te coloquei, tranquei e não há como desfazer.
Quando partiu naquela noite eu implorei aos santos, deuses e entidades que te trouxesse de volta e a resposta foi um sólido não. Então esperei-te, esperei e esperei arduamente, até que a espera me consumiu, tão comum quanto o ar, até que passou a não fazer diferença, até que passou a ser nada.
Porém hoje quando acordei, olhei-me no espelho e não me vi, talvez não fosse tão normal assim, talvez não fosse tão "nada" assim. Olhei para o carro na garagem e só pude pensar em partir.
O carro faz a curva e lembro-me da curva dos seus lábios que tocavam os meus de maneira calorosa. Lábios estes que tocavam o meu pescoço e me arrepiava. Lábios que me levavam a loucura. Lábios que recitavam poesia para a minha alma, que me davam bons conselhos e ruins também.
Uma luz vem em minha direção: ah não! Faróis! QUASE, ufa! Foi como a primeira vez que tentou me beijar, desviei-me e foi exatamente este ato que te fez realmente me amar.
Em uma grande avenida preciso de passagem, um estranho concede, toco duas vezes a buzina agradecida e foi quase assim quando ambos foram correspondidos.
E agora eu vejo os carros para trás, essa é a pior parte ou então o começo dela, você ficou para trás na minha vida e eu assim também fiquei na sua.
E essa chuva repentina é parte da minha melancolia, da minha saudade e solidão. Ela é parte das minhas lágrimas que não me deixam enxergar a frente.
Entro na estrada de terra que dessa vez não me diz nada, talvez seja o meu futuro após um abandono, talvez eu mesma tenha que construir algo ao seu redor e até mesmo asfaltá-la, mas não importa o que eu faça a poeira nunca abaixará.
Talvez se eu ascender o farol alto nesta escuridão da noite, eu te veja no final da estrada ou veja um abismo, mas não há nada.
Desligo então o carro por que eu não consigo seguir em frente sem você no banco do passageiro.

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