terça-feira, 18 de julho de 2017

Monocromáticos

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"Querido,
Isso é ridículo eu sei, mas você e eu somos ridículos.
Eu não tenho noção de como dizer nesta carta tudo que quero dizer há tanto tempo, então me perdoe se soar ruim ou rude, egoísta ou coisa assim, eu apenas pela primeira vez não sei usar as palavras da forma certa.
Lembra como nos conhecemos? 
Se a resposta for negativa, deixe-me refrescar sua memória, no fim espero que cada palavra se encaixe em um sentido lógico.
Eu fui a uma festa com uns amigos, não estava exatamente em um bom dia, então me entreguei de corpo e alma  naquele bar.
Por mais que eu bebesse era incrível como eu nem ao menos ficava tonta, impressionante como o nosso corpo se acostuma com o álcool e não se acostuma com a solidão, o porquê de tanta solidão? Longa história.
Era nessa longa história que eu pensava enquanto passavam vários caras ao meu lado me propondo mais bebida, como se bebida fosse sinal de beijo na boca e sexo na certa, para todos eu disse "não", repetidamente naquela noite eu disse essa mesma palavra nos mais variados tons.
Depois de muitas tentativas de ficar alcoolizada sem sucesso, você se sentou ao meu lado e eu me lembro claramente de suas palavras "Onde pensa que vai com tanta bebida?", eu te olhei e repeti o meu "não", mas então quando me virei para o bartender eu reparei que o meu "não" havia sido jogado fora, direto para a boca de lixo, afinal ele não fez o mínimo sentido.
Olhei para você e vi as luzes roxas, vermelhas, verdes e azuis colorirem o seu rosto rosado, seus olhos castanhos me encaravam como se quisesse encontrar algo em mim, algo que nem eu sabia onde estava, reparei no seu piercing de argola perfeitamente posicionado no seu nariz, e não pude deixar de reparar nos seus lábios entre abertos, meus olhos desceram então para as tatuagens que rodeavam o seu pescoço, sendo uma mais misteriosa que a outra, não pude ver onde acabavam por conta da roupa, mas depois da jaqueta de couro preto eu pude ver nos seus pulsos um pouco mais delas.
"Pretendo ir arrastada para casa" eu disse num tom seco, levantei o copo para mais uma e você mandou o bartender voltar. Aquela dose poderia de fato ter me levado a loucura, mas isso eu nunca saberei, nunca tive a oportunidade de saber qual era o seu gosto, pois nunca deixou eu bebe-la.
Perguntou sobre o porquê de eu não querer estar com os meus amigos e do motivo pelo qual eu estava me procurando no fundo de uma garrafa vazia, mas nem eu sabia.
"Tudo bem, eu sempre me procuro no fundo de uma caixa de cigarros" confessou, e então depois disso eu comecei a me procurar lá também.
Foi assim, assim que você me fez sua amiga, dois estranhos se procurando em locais que claramente nunca estaríamos, foi exatamente assim que nos afundamos em álcool e cigarros, descemos ao inferno juntos, nós vivíamos cambaleando pela calçada, rindo de um tropeço, e quando finalmente decidíamos fumar o ultimo cigarro nos lembrávamos de como nos sentíamos sozinhos, apesar de termos um ao outro.
Estas coisas aconteceram até o momento em que percebemos que não precisávamos de nada além de nós mesmos, então nos reerguemos, ainda sim juntos.
Eu senti varias vezes que você quis desistir, quis viver em um mundo de tortura, mas você sabia que se desistisse eu desistia, que se caísse o tombo doeria em mim, então as vezes acredito que parte da nossa felicidade foi criada por que pensou na sua amiga aqui.
Desta maneira você me deu a mão pela primeira e segunda vez. Na primeira você me derrubou, mas com você, nunca mais estive sozinha, e na segunda me levantou e eu continuava acompanhada.
Fomos com certeza a dupla de amigos mais sincera que perambulou por todas aquelas ruas paulistas, saímos, bebíamos socialmente, assim como fumávamos, mas era diferente, não era mais uma vida cheia de álcool e nicotina, era uma vida cheia de álcool, nicotina e principalmente felicidade.
Eu costumava te ajudar com as garotas e você me ajudava com os homens, quando nos cansávamos deles então nos achávamos e passávamos o resto da noite juntos, dançando um com outro, contando coisas e pegando um táxi, até que eu dormia em seu ombro e acordava na minha cama, sem você.
Você me contou a história de cada uma de suas tatuagens, e elas tem mais histórias do que eu poderia imaginar, um mundo de segredos estampado em sua pele, você passou para mim um mundo preto e branco, apesar de você fisicamente ser tão colorido, sua alma era monocromática, e em qualquer outro homem eu acharia isso ruim, mas em você não, o preto e branco nunca combinou tanto com alguém como combinou com você.
Confesso que desejei estar nesse mundo muitas vezes.
A esta altura do campeonato se passaram quase dois anos, você começou a namorar uma garota tão como você, e eu um cara tão como alguém por ai que se encaixe perfeitamente com ele, mesmo assim saíamos, e quando a sua garota se cansava e eu cansava do meu garoto nos encontrávamos e dançávamos juntos.
Durou pouco esse ritmo, nada mais era como antes, eu não te contava os meus segredos e você também não compartilhava os seus comigo, eu deixei de usar a sua jaqueta na volta das festas e nunca mais dormi no seu ombro, assim como nunca mais fiquei surpresa por acordar sem você, querido amigo, a gente se afastou com o tempo, e é claro que eu imaginava que isso iria acontecer.
Foi quando decidi fazer então a minha primeira tatuagem colorida, para uma alma que desejava ser preta e branca, um lobo azul, motivo? Segredo.
Demorei para achar o desenho perfeito, e quando achei eu fui direto a um tatuador, no caminho você me ligou com um papinho de "Oi, tudo bem? E ai? Quanto tempo!", eu disse que estava indo ao tatuador, e quando eu entrei no estúdio você já estava lá e segurou a minha mão pela terceira vez.
E como descrever aquilo? 
Você ergueu a cabeça e me olhava pelo canto dos olhos, segurava a minha mão como se tivesse estado lá o tempo todo, como se fosse incapaz de me deixar, eu tremia, mas tenho certeza que não era dor, era por que há muito tempo você não esteve tão próximo. Quando fechei meus olhos não foi por causa da tatuagem, foi para tentar eternizar a sua mão na minha, para sentir o meu coração bater mais forte, foi para desejar que você também quisesse o mesmo, mas não poderia ignorar o fato de que ambos éramos comprometidos, ambos éramos amigos e que eu não deveria estar pensando nada daquilo. Virei o meu rosto para onde você não estava e soltei a minha mão da sua, disse que estava bem, é claro que menti.
Acontece que seu rosto preto e branco não saia da minha mente, meu namoro foi por água abaixo, e eu acho que você esteve tão preocupado com a sua amiga de coração partido que o seu não teve um final diferente.
Éramos novamente aqueles dois que se procuravam em locais que nunca estaríamos.
Você nunca me perguntou o porquê de um lobo, cada tatuagem tem o seu segredo, e aqui esta a resposta para a pergunta que você nunca fez, lobos podem viver em locais inabitáveis, perigosos, e este local para mim é dentro de nós mesmos, quando estamos tão sozinhos que até nós nos tornamos fantasmas, incapacitados de fazer algo para nos salvar, eu era um lobo em uma terra perigosa.
Assim que eu me sinto tão sem você, quer dizer, nunca mais foi embora, mas nunca mais esteve com a mão na minha, talvez quando ambos os relacionamentos tiveram seu fim você tenha pensado em me dar a mão e quem sabe um abraço, ao invés disso me deu um cigarro, eu senti paz por estar fumando ao seu lado, brincamos com a fumaça, e nos preenchemos com o vazio um do outro, temporariamente, pois quando amanheceu partimos.
Será que me culpava pelo seu desastre no relacionamento e por isso não foi mais o mesmo?
Quer dizer, você tem seus picos de alegria, mas sorrisos bonitos nem sempre são reais.
Claro super clichê eu me apaixonar pelo meu melhor amigo, pelo cara que sempre esteve lá, e talvez seja por isso que te amo tanto, você esteve lá, seja com um cigarro ou com as mãos nas minhas.
Se nunca sentiu o que senti com as mãos dadas, então talvez nunca tenha sentido nem ao menos a força da nossa amizade.
Eu sinto muito se eu confundi as coisas, e admito que estou muito confusa, mas algo em mim queria que fossemos confusos juntos, e se você ler isso e bem, não se identificar, ou então não sentir o mesmo, ignore, esta carta não é para você.

Ass.: Uma amiga."

Peguei a carta que havia acabado de escrever, dobrei e guardei no bolso.
Ele deveria estar para chegar, quando chegou eu abri a porta e você vestido de preto com um cigarro na boca me ergueu em um abraço e disse que tinha novidades, me colocou no chão e me ajudou a arrumar a minha roupa.
"Uma nova garota" disse, ele acreditava que ela era a certa, pois assim como ele era tatuada, com cigarros contínuos, piercing, com um sorriso falso e o principal, tão preta e branca quanto ele. Ele disse muito mais, porém eu só via a boca dele abrir e fechar, e só podia ouvir o meu coração desejar sessar cada batimento, parar de bombear sangue e parar de bombear vida.
A sensação de todas as vezes que o laço de nossas mãos foram desfeitos voltou, como se as borboletas na barriga saíssem pela boca, como se o coração fosse esmagado e eu sorri assim como ele sorriu para mim por meses, de maneira falsa, quando pensei que eu não aguentaria a dor e choraria ali mesmo eu disse que iria pegar uma blusa, afinal a dele esquentaria outra pessoa a partir de agora.
Virei as costas e fui até meu quarto, respirei fundo e peguei a jaqueta, fiquei tão perdida que até me esqueci da carta, deveria tê-la escondido, mas nem lembrava que ela estava no meu bolso.
Pensei em dezenas de milhares de desculpas para não sair com ele, pois todos momentos que viveria naquela noite seria com o sentimento de despedida, mas ao invés disso, com o que talvez fosse quinze ou vinte minutos voltei para a porta.
Ele estava me olhando como da primeira vez no bar, junto com o dia que eu me tatuei e misturado com o vazio do olhar após o termino.
"Pronto", provavelmente eu tinha a voz fraca, e quando fechei a porta e me virei novamente para ele, não tive tempo para pensar e nem para olhá-lo, seus lábios foram de encontro aos meus, de inicio como um susto, de forma brusca, me segurando pelo rosto com as duas mãos, senti uma folha encostar no meu rosto e por um segundinho abri o olho para ver o que era, era a carta, que provavelmente teria caído do meu bolso.
O beijo foi ficando leve e eu podia sentir tudo que senti por anos voltar em um beijo, meu coração quase não cabia no peito e minha respiração estava incontrolável, quando seus dedos me tocavam, a minha pele adormecia e o meu lobo finalmente poderia descansar.
Ele me soltou, olhou-me nos olhos e sorriu como eu nunca vi, talvez eu tenha visto um pouco de cor  escapar naquele beijo e se não vi em seu beijo vi em suas palavras:
"A garota que eu disse, eu acreditava ser a certa, você eu sempre tive certeza".

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