quinta-feira, 18 de maio de 2017

Eu me viro


Você sabe, eu já disse uma vez que sou bem melhor escrevendo do que falando. Sempre engasgo, sempre gaguejo, nunca consigo falar da forma que quero ou transmitir a mensagem certa. 
Parece que estamos nos despedindo sem dizer uma palavra, mal conseguimos falar e rir das coisas bobas que costumávamos rir. Agora eu começo a me lembrar dos momentos, os poucos momentos que tivemos juntos. Você estava com aquela camisa ridícula do Palmeiras no nosso primeiro encontro, ainda assim eu te achei lindo. Sorria pra mim de uma maneira íntima, porém encantadora. Eu não sabia se te olhava, se prestava atenção nas coisas que você dizia, na cerveja que eu por algum motivo não conseguia beber, na sua mão que tocava meu ombro. Em alguns instantes eu me perguntei em silêncio: "O que tá acontecendo com você, menina? É só um cara! Respira ... Respira!". 
Mas no fundo, bem lá no fundo eu sabia que você não seria só um cara. Eu senti meu coração bater novamente naquele dia. Parecia uma maldita escola de samba dentro de mim, e você ainda nem tinha me beijado. Depois do beijo, eu tive certeza que estava muito encrencada. Existia algo em você que me encantava. E eu só tinha duas opções: deixar rolar ou fazer parar. Deixei rolar. Primeiro porque é como dizem por aí, quem está na chuva é para se molhar, e eu já estava molhada demais naquela altura do campeonato, depois porque mesmo que eu quisesse me afastar já era tarde. Você fazia parte do meu dia. Você era a pessoa pra quem eu queria falar besteira no fim da noite. A chamada de vídeo que eu não tinha vergonha de atender. Você era a calmaria no meio do meu turbilhão de sentimento. Você me fez começar a gostar da imagem que via no meu espelho, e quando me dei conta eu já estava rindo até pro carteiro. Talvez eu não consiga mexer assim com você, mas você sabe que mexeu comigo, tanto sabe que agora está lentamente se afastando.
Uma noite você disse: "É tão legal isso que a gente tem né?" Eu pensei que você fosse dizer sobre o sentimento mútuo, o carinho, a vontade de estar perto, e você disse : "A química". Sim, o sexo é incrível. Você sabe o que fazer, quando fazer, como fazer, eu fico meio perdida as vezes, sem saber se estou fazendo certo, porque você sempre faz tudo muito certo comigo. Não consigo me conter. Sempre que chego perto de você é como se meu lado devassa e safada despertasse, sai faísca, eu tenho vontade de morar em você. E eu sei que isso é muito errado, que eu nunca deveria dizer isso, por isso estou escrevendo, porque talvez você nunca leia, porque talvez você nem saiba que é sobre você. Mas é tudo sobre você. É tanto sobre você. 
E a gente nem teve tempo de ir ao cinema não é? Quem sabe em uma próxima estação? Quem sabe em uma outra época? Podíamos assistir um filme de super-herói, eu gosto, e acho que você também gosta. E aí vamos comer da pipoca um do outro, e sair comentando dos poderes que gostaríamos de ter se pudéssemos. Eu gostaria de ser invisível às vezes e estar em mais de um lugar no mundo. E eu aposto que você ia rir, me chamar de algum apelido qualquer... quem sabe? 
Eu nem tive tempo de dizer que meu chocolate preferido é o crocante da garoto, aquele que ninguém gosta. Que só tomo sorvete de chocolate. Que eu choro até hoje assistindo o rei leão. Que odeio comida japonesa. 
Nem tive tempo de mostrar meus dotes culinários, mas só sei fazer macarrão. Nem tive tempo de ficar agarrada em uma noite fria como a de hoje. Nem tive tempo de aproveitar você o máximo que podia, porque eu achava que você estaria aqui depois, e depois, e depois... 
Mas eu sei que depois é muito tempo, que a vida passa rápido, que as pessoas não gostam de coisas que duram, que ninguém tem paciência para conhecer ninguém, que os abraços não podem durar para sempre, e que os sorrisos são como estrelas cadentes: eles surgem e somem do nada... Depois você nem está aqui, depois nós nem nos falamos mais, depois você nem se lembra mais de mim, depois eu vou te encontrar por aí, com aquela mesma camisa do palmeiras, com esse teu jeitinho de sorrir que me faz ficar boba, com esses olhinhos tão transparentes que você tem, de mãos dadas com outra garota e vou pensar: Depois eu conto pra ele o quanto eu senti falta dele, depois... 
E aí talvez você saiba um dia o quanto eu gostava de você. 
Agora senta aqui, deixa eu fazer um último cafuné, ficar nos seus braços só mais cinco minutinhos, rir das coisas idiotas que falamos, beijar você... 
Depois eu resolvo com meu coração, depois eu me viro!

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