domingo, 26 de março de 2017

Foi o Momento Errado

ELE

-- Eu gostava de você. – Ela encarava o chão, pensativa, até que desviou seu olhar para mim. Vi o brilho naqueles olhos castanhos e, por um segundo, me perdi. Me encontrei nas duas palavras seguintes que ela disse: – De verdade!

-- Eu também gostava. Mas foi um desencontro. Foi o momento errado.

O momento errado... Eu tentei ficar com ela por meses e meses, cansado de ouvir suas desculpas para não se aproximar de mim. Fiquei surpreso quando ela me procurou. Era só um lance como outro qualquer. Pura diversão. Nos entendíamos muito bem. Passávamos o dia nos divertindo e fazendo amor. Ela era minha companheira de pizzas, vídeo games e cinemas. Assistimos aos jogos da Copa do Mundo juntos e eu nunca vi maior pé-frio que ela. Eu dormia abraçado com ela, com o corpo dela grudado no meu. Eu era livre. Encontrava com ela quando eu queria. Quando não queria, eu simplesmente pegava meu carro e colocava o pé na estrada. Era fácil. Ela nunca questionava. Eu passava um mês sem dar sinal de vida, sem responder suas mensagens. Me embebedava toda noite nos bares, por aí. E foi assim por vários meses. Quando voltava, ela ainda estava me esperando, usando aquela camiseta da banda que eu gostava. Tão lindinha. Tão divertida. Ela ria até das caretas que eu fazia. Encontrou uma foto de um leão bocejando e disse que parecia comigo. Foi ouvindo Beatles. Beatles era a banda que estava tocando quando a gente começou a namorar. Mas eu nunca perguntei se ela queria namorar comigo. Não, aquilo não foi um namoro. Eu só dizia isso quando estava tonto. Mas eu me lembro de ter dito que ela conheceria minha mãe e meus amigos. Ela ia ficar perdida com meus amigos. Eram todos atleticanos, ela era cruzeirense doente e eu torcia para o São Paulo. Adorava o jeito que ela dançava. Ela conhecia toda a minha rotina. Ela cuidava de mim quando eu não estava bem. O medo tomava conta de mim, mas ela sempre vinha me abraçar. Eu me lembro de ter pedido para ela ficar e ter dito que a amava. Foi só uma vez. Mas tudo foi se desfazendo, de uma hora para a outra, e eu não fiz nada para impedir. Eu não quis fazer. Eu tinha meu trabalho, minha vida, minhas vontades. Ela só estava começando a vida dela. Eu simplesmente me distanciei. Foi o momento errado.

-- Que pena! – ela respondeu.

 ELA

-- Eu gostava de você. – Eu só queria que ele soubesse. Dentro de mim, aquele sentimento era verdadeiro, mas acabou. Talvez ele percebesse a chance que perdeu. O silêncio permaneceu até que olhei para ele. Aqueles olhos verdes vidrados em mim, mas perdidos, longe dali. – De verdade!

-- Eu também gostava. Mas foi um desencontro. Foi o momento errado.

O momento errado... Ele ficou atrás de mim por vários meses, me atormentando com aquelas cantadas baratas e elogios sem fim, tentando me convencer de ficar com ele. Mas ele era bonito, elegante quando queria ser... inteligente e educado, um cavalheiro quando queria ser. Procurei por ele. No começo eu não pensei em me apaixonar. Entrei naquele relacionamento distraída. Mas os nossos gostos se encontravam, sempre. Passávamos o dia nos divertindo e fazendo amor. Ele era meu maior companheiro em tudo o que eu fazia. Assistimos aos jogos da Copa do Mundo juntos e eu torcia com todas as minhas forças, mesmo ele me chamando de pé-frio. Ele me aconchegava em seu peito e, dormir junto com alguém nunca me pareceu tão confortável. Mas ele me procurava quando queria. Quando não queria, ele simplesmente pegava o carro e colocava o pé na estrada. Era fácil. Ele não era meu namorado, eu não podia cobrar nada. Ele sumia e eu ficava aqui, com o coração apertado, sonhando em ser uma pessoa importante para ele. E foi assim por vários meses. Quando ele voltava, tudo o que eu queria era que ele gostasse de mim. Tão lindo. Tão engraçado. Foi ouvindo Beatles. Beatles era a banda que estava tocando quando a gente começou a ficar. Quando ele bebia, ele dizia que eu era sua namorada. Eu rezava para que fosse de verdade e que nada mais separasse nós dois. Mas nunca conheci a mãe dele, nem seus amigos. Ele conhecia os meus. Adorava quando ele tocava violino. Ele conhecia toda a minha rotina. Cheguei a cuidar dele no meio das suas crises de pânico. Ele me abraçava e me pedia para ficar, chegou a dizer que me amava. Foi só uma vez. Mas tudo foi se desfazendo, de uma hora para a outra, e eu não consegui fazer nada para impedir. Eu estava seguindo o mesmo caminho dele, mas ele preferia escapar sozinho do que me ter ao seu lado. Ele estava cada vez mais distante. Foi o momento errado.

-- Que pena! – respondi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário